A ilusão de que “todo mundo está bem” (menos eu).

Se você passou mais de dez minutos navegando pelas redes sociais hoje, é muito provável que tenha sido bombardeado por uma quantidade imensa de divulgações de sucesso, beleza e harmonia. São pessoas sorridentes acordando às cinco da manhã cheias de energia, pratos de comida que parecem obras de arte, casais que nunca discutem, viagens inesquecíveis e profissionais que celebram conquistas extraordinárias a cada nova semana. Olhando para essa vitrine da vida alheia, é quase impossível não ser invadido por um sentimento incômodo, uma pontada fina no peito que sussurra: “Por que a vida de todo mundo parece dar certo, menos a minha?”.

Essa sensação é um dos sofrimentos mais silenciosos e devastadores dos nossos tempos. Desenvolvemos uma crença inconsciente de que a felicidade se tornou uma obrigação diária e que qualquer sinal de tristeza, dúvida ou cansaço é um defeito de fabricação nosso. O problema é que, ao olharmos para o mundo através do filtro da perfeição editada dos outros, começamos a julgar a nossa própria realidade — que tem dias cinzentos, boletos atrasados e crises de choro — de forma cruel e desproporcional.

O palco dos outros e os nossos bastidores.

Existe uma frase clássica que explica perfeitamente essa armadilha psicológica: “Nós sofremos porque comparamos os nossos bastidores com o palco dos outros”. Pense bem. Os seus bastidores incluem tudo o que você vive na intimidade do seu dia a dia: aquela insegurança antes de uma reunião importante, a discussão boba que você teve com seu parceiro pela manhã, a preguiça de levantar da cama, as suas espinhas, os seus medos mais profundos e aquela sensação de que você está apenas fingindo que sabe o que está fazendo.

Por outro lado, o que você consome na internet ou até mesmo nas conversas superficiais de corredor é o palco das outras pessoas. Ninguém posta uma foto no meio de uma crise de ansiedade, ninguém faz um vídeo mostrando a pia cheia de louça acumulada por falta de ânimo e pouquíssimas pessoas compartilham seus erros profissionais mais vergonhosos. O que chega até você é apenas o produto final, meticulosamente selecionado, cortado e iluminado para parecer impecável.

Quando você compara a sua vida real, complexa e cheia de imperfeições, com esse recorte artificial da vida alheia, a conta nunca vai fechar. O resultado dessa matemática injusta é uma sensação permanente de inadequação, como se você estivesse ficando para trás enquanto o resto do mundo caminha a passos largos rumo à plenitude.

A normalidade esquecida dos dias ruins.

Precisamos resgatar com urgência uma verdade libertadora: ter dias ruins, falhar, sentir-se perdido e experimentar o desânimo é absolutamente normal. A dor e a incerteza não são sinais de que a sua vida está errada; elas são sinais de que você está vivo. A existência humana não é uma linha reta de evolução e alegria constantes. Ela se parece muito mais com as estações do ano, onde o inverno rigoroso, com suas árvores secas e recolhimento, é tão necessário para a vida quanto o calor do verão.

No entanto, a nossa cultura atual transformou a vulnerabilidade em um tabu. Parece que fomos proibidos de confessar que estamos cansados de lutar, que temos medo do futuro ou que simplesmente não estamos bem hoje. Quando alguém nos pergunta um simples “Tudo bem?” na rua, respondemos de forma automática com um “Tudo bem, e com você?”, mesmo que por dentro, estejamos desmoronando. Essa máscara coletiva reforça o mito de que o sofrimento é uma exclusividade sua, fazendo com que você se sinta ainda mais isolado em sua dor.

Saindo da armadilha da comparação.

Mudar a forma como percebemos o bem-estar dos outros exige um esforço consciente de reeducar o nosso olhar. O primeiro passo para se libertar dessa angústia é entender que o sucesso ou a aparente felicidade de alguém não diminui em nada o valor da sua própria trajetória. A vida não é uma competição com os outros, mas sim uma jornada individual de aprendizado.

Aqui estão algumas posturas simples que ajudam a aliviar o peso dessa comparação:

  • Pratique o ceticismo saudável: Ao olhar para uma imagem perfeita na internet, lembre-se de que aquilo é um recorte de milésimos de segundo. Você não conhece as dores, os traumas, as renúncias e os problemas de saúde que aquela pessoa enfrenta quando a câmera é desligada. Todo mundo tem uma cruz para carregar, mesmo quem usa roupas de grife.
  • Filtre o que você consome: Se seguir determinada pessoa ou perfil faz com que você se sinta inferior, feio ou fracassado, use o botão de deixar de seguir ou silenciar sem culpa. Proteja a sua paz mental da superexposição a realidades que não te acrescentam nada. Não procure viver a vida do outro. Você tem a sua.
  • Valorize as suas pequenas vitórias cotidianas: Muitas vezes estamos tão obcecados em alcançar as metas grandiosas dos outros que não percebemos o quanto já avançamos. Celebrar o fato de ter conseguido manter a calma em um dia estressante, ter cuidado bem de si mesmo ou ter resolvido um problema simples é uma forma de validar a sua realidade.

O resgate da autocompaixão.

Ficar bem com o fato de que nem sempre estamos bem é o ápice da maturidade emocional. Quando paramos de exigir de nós mesmos uma vida sem falhas, tiramos um elefante das nossas costas. Você não precisa ser forte o tempo todo, não precisa ter todas as respostas e certamente não precisa provar para o mundo que a sua vida é perfeita.

Olhe para si mesmo com mais gentileza. Acolha os seus dias difíceis com a mesma compaixão que você usaria para acolher um amigo querido que está passando por um momento de tempestade. Seus bastidores podem ser confusos e, às vezes, um pouco caóticos, mas eles são reais. E é justamente nessa realidade crua, com todos os seus altos e baixos, que reside a verdadeira beleza de ser humano. Ninguém está 100% bem o tempo todo. E está tudo bem ser assim. Siga em frente.

5 comentários em “A ilusão de que “todo mundo está bem” (menos eu).”

  1. Patricia Marina

    Adorei o artigo
    Contemporâneo.
    Os passos para ajudar as pessoas a pensarem , duvidarem do que estão olhando e se apropriarem do seu próprio viver é, ao meu ver, libertador.

  2. Gostei muito desse artigo, Nelson. Até mesmo em grandes guerras, andamos
    para trás.

    No xadrez, voltamos o cavalo para defender o rei. Em período de Copa do Mundo de futebol, devemos usar o goleiro para mantermos a posse de bola e avançar
    com pulmões cheios.

    1. Amigo, gostei bastante do artigo, numa linguagem simples, direta e acessível, você mostra que olhar mais para si mesmo e menos para os outros, é tbem um esforço consciente diário e consequentemente, libertador.
      Tenho procurado essa prática, obrigada por validá-la. Bjs

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