Por que é tão difícil ficar em silêncio comigo mesmo?

Se você parar para observar atentamente a sua rotina, vai perceber que o silêncio absoluto se tornou uma espécie de luxo raro — ou, para muitos, uma verdadeira ameaça. Acordamos e, quase que por instinto, já esticamos o braço para checar as primeiras notificações no celular. No trânsito ou no transporte público, os fones de ouvido são companheiros indispensáveis para aplacar o tempo. Em casa, a televisão muitas vezes fica ligada apenas para “fazer um fundo” ou criar uma ilusão de companhia enquanto cozinhamos, limpamos a casa ou respondemos a e-mails. Ela ocupa o vazio.,

​Preenchemos cada pequeno intervalo do dia com algum tipo de estímulo visual ou sonoro. Se o elevador demora trinta segundos para chegar, o celular sai do bolso de forma automática. Se paramos em um semáforo fechado, lá estamos nós buscando uma nova distração na tela. A verdade é que nos tornamos intolerantes aos vazios. A grande questão que precisamos nos colocar é: do que exatamente estamos fugindo quando tentamos apagar o silêncio a todo custo?

​O barulho que esconde o que sentimos.

​O barulho do mundo moderno funciona como uma excelente anestesia para a nossa mente. Enquanto houver uma música tocando, um vídeo passando, uma série correndo na tela ou uma discussão acalorada em um podcast para acompanhar, a nossa atenção está totalmente voltada para fora. É um distrator perfeito, uma cortina de fumaça que mantém a nossa mente ocupada com a vida dos outros ou com informações que, na maioria das vezes, esqueceremos cinco minutos depois.

​O grande problema de desligar as telas e deixar o ambiente mudo é que, quando o barulho de fora finalmente cessa, o barulho de dentro começa a aparecer. E o barulho interno costuma ser muito mais alto e complexo.

​No silêncio, aqueles pensamentos, angústias e frustrações que passamos o dia inteiro empurrando para debaixo do tapete ganham voz. É na quietude que surgem as perguntas desconfortáveis que evitamos a todo custo: “Eu estou realmente feliz com o rumo que a minha vida está tomando?”, “Por que aquela frase que meu colega disse ontem me deixou tão profundamente magoado?”, “O que eu vou fazer com essa sensação esquisita de vazio que insiste em aparecer?”. Ficar em silêncio assusta porque nos coloca de frente com o espelho da nossa própria alma, sem filtros, sem edições e sem curtidas.

​A ditadura da produtividade e o medo do vazio.

​Outro fator que nos afasta do silêncio é a cultura em que vivemos, que transformou o “fazer nada” em um pecado capital. Fomos moldados por uma mentalidade que associa o descanso à perda de tempo ou à falta de ambição. Ficar parado na varanda apenas olhando para o horizonte, ou sentar-se no sofá por dez minutos sem nenhuma tarefa em mãos, parece um erro de percurso, um desperdício de energia útil.

​Criou-se uma urgência invisível de estarmos sempre produzindo, aprendendo, consumindo ou evoluindo. Se temos um momento livre, sentimos que “deveríamos” estar lendo um livro útil, ouvindo um audiolivro de negócios ou organizando alguma gaveta. Com isso, perdemos a capacidade de apenas ser e estar.

​No entanto, o tédio e a quietude não são defeitos do sistema. Eles são, na verdade, o solo sagrado onde a nossa mente processa, organiza e digere tudo o que vivemos ao longo do dia. Assim como o nosso corpo físico precisa do sono profundo todas as noites para se recuperar e regenerar suas células, a nossa mente precisa de pausas absolutas de estímulos para conseguir metabolizar as emoções. Sem esses momentos de esvaziamento, ficamos mentalmente superlotados. O resultado disso você provavelmente já sente na pele: cansaço crônico, oscilações de humor, irritabilidade sem motivo aparente e aquela sensação constante de que estamos carregando o mundo nas costas, mesmo sem saber o porquê.

​O silêncio como espaço de reconfiguração.

​É importante entender que o silêncio não é a ausência de vida; ele é a presença de nós mesmos. Quando silenciamos o exterior, damos espaço para que a nossa criatividade respire. É quase um clichê notar que as melhores ideias costumam surgir durante o banho, justamente em um dos poucos momentos do dia em que estamos longe das telas e imersos no som repetitivo e contínuo da água. Não é mágica: é apenas a mente finalmente livre para fazer conexões que o excesso de informação bloqueava. Mas, como o progresso não para, certamente surgirão aparelhos de tela impermeáveis, que poderão ser assistidos quando voce estiver tomando banho. O que nos leva à seguinte questão: somos nós que decidimos o que fazer de nossas vidas em todos os momentos.

​Além disso, tolerar a própria companhia no silêncio é o primeiro passo para construir uma autoestima genuína. Se eu não consigo suportar ficar trinta minutos sozinho comigo mesmo, sem nenhuma distração, como posso esperar que os outros apreciem a minha companhia? O isolamento saudável nos ensina a não depender do barulho alheio para nos sentirmos validados ou seguros.

​Como fazer as pazes com a quietude no dia a dia.

​Ficar bem em silêncio é uma habilidade que se aprende e se treina aos poucos, especialmente em um mundo desenhado para capturar a nossa atenção a cada segundo. Não significa que você precise se isolar em uma montanha, virar as costas para a tecnologia ou passar horas meditando em uma posição desconfortável. Trata-se de resgatar pequenos rituais de calmaria na sua rotina atual.

​Você pode começar com pequenos passos:

  • Experimente fazer uma refeição completa sem olhar para nenhuma tela e sem ler nada. Apenas sinta o sabor da comida e preste atenção ao momento. Se dê a oportunidade de fazer isto.
  • Tente fazer um trajeto curto a pé ou de carro sem ligar o rádio e sem colocar os fones de ouvido. Deixe que os sons da rua ou o próprio silêncio do veículo guiem a viagem. Você poderá se surpreender!
  • Ao acordar, estipule um limite de 15 minutos antes de pegar no celular. Use esse tempo para respirar, espreguiçar e perceber como seu corpo acordou hoje.
  • Crie uma “pausa do nada” no meio da tarde. Cinco minutos para sentar, olhar pela janela e deixar a mente vagar sem rumo e sem obrigações. Apenas contemple…

​No começo, o experimento pode ser bastante desconfortável. Os pensamentos vão parecer acelerados, a mão vai coçar para buscar o celular e uma leve ansiedade pode surgir. Esse desconforto é absolutamente normal: é o seu cérebro passando por uma crise de abstinência de dopamina.

​Mas, se você persistir um pouco mais e atravessar essa barreira inicial, vai perceber que o silêncio deixa de ser um vazio assustador e passa a ser um espaço de profundo descanso, acolhimento e autoconhecimento. Afinal, para conseguirmos escutar de verdade o que o mundo e as pessoas ao nosso redor dizem, precisamos de silêncio. E para escutar o que a nossa própria vida está tentando nos dizer, também. Escute-se.

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