A Neurose de Domingo: O Vazio que o Descanso Revela.

A experiência do tempo na contemporaneidade é marcada por uma aceleração frenética. Vivemos sob a égide da produtividade, onde o valor do sujeito é frequentemente medido pela sua capacidade de realizar tarefas, cumprir agendas e entregar resultados. No entanto, é no momento em que essa engrenagem cessa — especificamente nas tardes de domingo — que um fenômeno clínico intrigante emerge: a chamada “neurose de domingo”.

O termo, originalmente cunhado por Sándor Ferenczi e explorado por Viktor Frankl, descreve uma forma particular de depressão ou ansiedade que se manifesta quando o indivíduo é confrontado com a ausência de obrigações. Durante a semana, o trabalho funciona como uma estrutura defensiva, uma espécie de “armadura psíquica” que nos protege do contato direto com os nossos conflitos internos e questões existenciais. O fazer constante atua como um ruído que abafa os ecos do nosso desamparo original. Quando chega o domingo, ou, na época atual, o dia de folga de seu trabalho rotineiro, o silêncio se impõe. Sem o roteiro do dever, o sujeito é lançado para dentro de si mesmo. Para muitos, este não é um momento de alívio, mas de angústia. O descanso, que deveria ser reparador, torna-se um peso. É o que podemos chamar de “horror ao vazio”.

Na tentativa de fugir desse vazio dominical, muitos recorrem à prática desportiva. No entanto, o que se observa frequentemente é que o desporto de lazer acaba por reproduzir as mesmas dinâmicas de desempenho da vida profissional. O campo de ténis, por exemplo, torna-se um cenário privilegiado para a observação das defesas do ego. É comum observarmos o jogador que, diante da iminência da derrota, utiliza a frase: **”eu consegui perder”**. Do ponto de vista psicanalítico, essa construção frasal é fascinante. Ao dizer “eu consegui”, o sujeito tenta resgatar uma omnipotência perdida. É uma manobra defensiva para evitar o reconhecimento da superioridade do outro ou da sua própria falibilidade. O ego prefere a culpa pelo erro próprio ao reconhecimento da sua vulnerabilidade. Assim, mesmo no lazer, o sujeito permanece prisioneiro de uma lógica de controle que visa mascarar o desamparo.

Antigamente, o domingo era estruturado por rituais — fossem religiosos, familiares ou comunitários. Havia uma moldura que continha o indivíduo. Na modernidade líquida, esses rituais fragmentaram-se. O domingo tornou-se um tempo “aberto”, e essa abertura é, por vezes, insuportável. A indústria do entretenimento tenta preencher este hiato com o consumo digital e o fluxo incessante de informações nas redes sociais. O “scroll” (rolagem) infinito do celular num domingo à tarde é, muitas vezes, uma tentativa desesperada de evitar o encontro com o tédio. No entanto, o tédio é uma etapa necessária para a criatividade e para a elaboração psíquica. Ao evitá-lo a todo o custo, perdemos a oportunidade de processar as nossas angústias.

Na clínica, a neurose de domingo revela a fragilidade do desejo do sujeito. Se a pessoa só se sente viva quando está cumprindo ordens ou metas externas, o que resta dela quando está livre? O domingo pode estar expondo a falta de um projeto de vida autêntico e a dependência de estruturas externas para a regulação da autoestima. A angústia dominical é um sintoma que nos aponta uma direção: a necessidade de reconciliação com o ócio. Winnicott falava sobre a importância da “capacidade de estar só”. Para o autor, essa é uma das marcas mais importantes da maturidade emocional. O indivíduo que desenvolveu essa capacidade consegue habitar o domingo sem ser devorado pela ansiedade, pois possui um mundo interno rico o suficiente para suportar a ausência de estímulos externos.

Para que o desporto no fim de semana não seja apenas mais uma neurose disfarçada de saúde, é preciso mudar a relação com o jogo. Reconhecer o mérito do adversário e aceitar a derrota como parte da contingência da vida é um exercício profundo de realidade. No momento em que o jogador aceita que “perdeu” porque o outro jogou melhor, e não porque ele “conseguiu” errar, ele está a operar uma pequena, mas significativa, cura psíquica. Ele está  saindo da onipotência infantil para entrar na alteridade.

A neurose de domingo não deve ser vista apenas como um sofrimento a ser eliminado, mas como um sinalizador. Ela pergunta ao sujeito: “Quem é você quando não está produzindo?”. Aprender a habitar o domingo, a suportar o vazio e a aceitar a nossa vulnerabilidade no campo de jogo de trabalho e de estudo, são formas de resistência contra uma cultura que nos quer transformar em máquinas de desempenho. O descanso real não vem da ausência de atividade, mas da presença de si mesmo. Transformar o domingo de um dia de angústia num dia de elaboração exige coragem para enfrentar o silêncio e paciência para deixar que o desejo próprio, e não a obrigação, comece a falar.

3 comentários em “A Neurose de Domingo: O Vazio que o Descanso Revela.”

  1. Patricia Marina

    Que texto maravilhoso!
    O fazer encobrindo a possibilidade de ser. E ao se deparar com o ser que somos aceitar a verdade pronunciada , eu “ não consegui perder …., na verdade o outro jogou melhor”.
    As associações que fez foram preciosas. Sair da onipotência infantil rumo a alteridade.
    Permitir que o desejo fale …, dentre tantas outras

  2. Patricia Marina

    Pensando no que escreveu sobre a neurose de domingo e relacionando ao meu momento de vida, percebo que quando a vida ganha sentido, ou seja, quando me aproprio de mim mesma , dos meus desejos , o domingo deixa de ser assim tão ruim …

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