
“As pessoas detestam os idosos.” Essa frase impactante, disparada pela Dra. Thelma em um jantar após um erro banal do garçom, foi o ponto de partida para uma incômoda reflexão. Por trás dos comportamentos infantis e da falsa fofura com que envelopamos a velhice, esconde-se uma hostilidade latente. Afinal, por que a nossa sociedade rejeita tanto quem desacelera? No novo artigo do blog, investigamos as raízes psíquicas e econômicas do etarismo e como essa dinâmica pode nos conduzir ao doloroso fenômeno do auto-ódio.
Há alguns anos fui jantar com minha supervisora Dra. Thelma, na época com 75 anos de idade, e alguns componentes do grupo que ela coordenava. Em dado momento, ela pediu ao garçom um copo sem gelo. Ele trouxe com gelo. Ela foi um pouco ríspida com ele, dizendo que pediu um copo sem gelo. Em seguida, fez o seguinte comentário: as pessoas detestam os idosos. Perguntei: como assim? Ela respondeu: sim, tratam mal, desconsideram… Achei estranho o comentário dela, mas ele não saiu da minha cabeça.
Contrastei com comportamentos e atitudes por vezes gentis demais com que algumas pessoas se dirigem e tratam os idosos. Por vezes até infantilizadas… mas, ao longo do tempo, observei alguns maus-tratos dirigidos aos mais avançados em idade. Comentários maldosos, ironia, comparações… e até autodepreciações, comprovando a teoria comentada por Sartre, do auto ódio, ou seja, o ato de auto- depreciar-se para identificar-se com o grupo dominante, no caso, jovens saudáveis e donos de si. Quero explorar no artigo a seguinte indagação: por que algumas pessoas parecem odiar os idosos? Por que os tratam mal, por vezes até de forma cruel? Tentarei fazer um comparativo sobre como algumas diferentes culturas tratam os idosos.
A Infância Reversa: A Violência da Condescendência.
A primeira pista para compreender esse paradoxo social está na forma como nossa rejeição aparece por meio de comportamentos e atitudes por vezes gentis demais — mas de uma gentileza profundamente perversa. Refiro-me à tendência generalizada de infantilizar o sujeito que envelheceu.
Não é raro testemunhar cenas em que adultos saudáveis se dirigem a idosos usando o tom de voz anasalado reservado a bebês, apelidando-os de diminutivos genéricos (como “vovozinho” para estranhos) ou celebrando atos corriqueiros com uma festa condescendente. O que se vende socialmente como “carinho” é, sob a ótica clínica, uma estratégia inconsciente de esvaziamento e apagamento.
Ao transformarmos o idoso em uma criança grande, nós o destituímos de sua história, de sua sexualidade, de seu intelecto e, fundamentalmente, de sua autoridade intelectual e afetiva. O idoso infantilizado deixa de ser um sujeito com quem se deve debater, divergir ou a quem se deve respeitar; ele se torna um objeto inofensivo de tutela, privado de seu desejo. Retira-se do indivíduo o direito à sua singularidade e à sua própria crueza — inclusive o direito de ser ríspido, como a Dra. Thelma foi ao exigir o cumprimento de sua vontade. O idoso incomoda.
No entanto, quando essa máscara da fofura cai sob a pressão da pressa cotidiana, o que sobra é a impaciência crua. Manifesta-se nos maus-tratos dirigidos aos mais avançados em idade: os comentários maldosos disfarçados de piada, as ironias no almoço de família, as comparações humilhantes com a agilidade dos mais jovens e o isolamento digital imposto sob o pretexto de que “eles não acompanham a tecnologia”. Discriminar, nesse contexto, é um ato de descarte em vida.
A imagem do Opressor: O Fenômeno do Auto Ódio.
A manifestação mais dolorosa dessa dinâmica, contudo, não vem apenas de fora. Ao longo do tempo, passa-se a notar como alguns idosos frequentemente se tornam os carrascos de si mesmos. São os comentários autodepreciativos proferidos entre risos nervosos: “Desculpe a lentidão, é que a carcaça está velha”, ou “Não liga para mim não, velho só dá trabalho”.
Essa postura reproduz com exatidão o mecanismo que o existencialismo identificou nas estruturas da opressão social: o fenômeno do auto ódio. Diante de um grupo dominante poderoso, hipervalorizado e idealizado — neste caso, o dos jovens saudáveis, produtivos e donos de si —, o indivíduo pertencente ao grupo marginalizado e tende a introjetar o olhar do opressor.
Depreciar a própria velhice em público funciona como um mecanismo de defesa e uma tentativa desesperada de barganha psíquica. É como se o idoso dissesse aos mais jovens: “Eu sei que sou um peso, eu concordo com o julgamento de vocês, vejam como sou consciente disso”. Ao ridicularizar a si mesmo, o sujeito tenta, por um instante, descolar-se de sua própria condição real e alinhar-se aos opressores na esperança de ser aceito e tolerado. É a tragédia do indivíduo que, para não ser completamente excluído, aceita assinar a própria certidão de obsolescência. É trágico, mas é assim que funciona para muitos.
As Duas Raízes do Ódio: O Espelho e a Engrenagem.
Para responder à indagação central sobre o porquê de tamanha hostilidade e crueldade, precisamos dividir o argumento em duas grandes forças silenciosas que moldam a subjetividade moderna: uma de ordem psíquica e outra de ordem socio-econômica.
- O Tabu da Finitude (Vertente Psíquica): O idoso funciona como um espelho implacável. Ele projeta, na cara dos mais jovens, tudo aquilo que a sociedade tenta a todo custo reprimir, recalcar e esquecer: a finitude, o declínio inevitável do corpo, a perda do controle egóico e o fim da ilusão de onipotência. Vivemos em uma era obcecada pela estética plástica e pela ilusão da imortalidade. Ao cruzar com a lentidão ou as rugas do outro, o jovem enxerga o seu próprio destino biológico. Hostilizar, isolar ou desvalorizar o idoso é, portanto, uma defesa psíquica primitiva: afastar o outro é tentar empurrar para longe a angústia da própria morte. O idoso transmite a seguinte mensagem inevitável: “Eu sou você amanhã”. Um recado incômodo do qual se tenta se afastar.
- A Lógica Produtivista (Vertente Socio-Econômica): No modelo socioeconômico capitalista, o valor do ser humano está intimamente ligado à sua capacidade de produzir e consumir em ritmo acelerado. O indivíduo é tolerado enquanto serve como engrenagem ativa de produção. Uma vez destituído dessa utilidade mercadológica, ao se aposentar ou desacelerar, o idoso é lido pelo sistema como uma peça disfuncional, um “peso morto” ou um “encargo social”. Quando olhamos para a estrutura pública, esse descarte ganha contornos de um paradoxo cruel: ao mesmo tempo em que as reformas previdenciárias empurram a aposentadoria para horizontes distantes, o mercado fecha sumariamente suas portas para quem passa dos 50 anos profissionais. A impaciência do garçom que não respeita o pedido da Dra. Thelma, reflete a pressa de uma cultura que transformou o tempo em mercadoria e não sabe o que fazer com quem exige pausa.
Diálogo Antropológico: A Velhice Através das Culturas.
Essa dinâmica de desprezo e descarte, contudo, está longe de ser um traço universal ou biológico da condição humana. O “ódio” ao idoso é uma patologia muito específica da nossa modernidade ocidental. Quando estendemos o olhar para a antropologia, descobrimos que a passagem do tempo pode ocupar um lugar de centralidade, reverência e preservação:
| Cultura / Sociedade | Papel e Percepção do Idoso |
| Sociedades Ocidentais Modernas. | As sociedades ocidentais modernas operam sob uma lógica que ancora o valor humano quase exclusivamente no binômio da juventude e da produtividade rápida. Sob a égide do consumo e da inovação constante, onde o indivíduo é validado pela sua capacidade de gerar resultados com velocidade implacável, o idoso é frequentemente empurrado para as margens, sendo visto como uma figura obsoleta cuja lentidão orgânica desafia o ritmo das engrenagens sociais. Desse modo, o envelhecimento deixa de ser uma etapa natural da vida para ser encarado como um encargo social e econômico, transformando a vulnerabilidade da velhice em um peso burocrático e isolando o sujeito em uma velada exclusão produtiva. |
| Culturas Orientais (Confucionismo). | Nas culturas orientais, a tradicional autoridade moral e a sabedoria delegadas aos idosos ganharam contornos complexos na contemporaneidade. Se, por um lado, as raízes filosóficas ainda sustentam o ideal de piedade filial e respeito formal, por outro, o ritmo implacável da vida moderna e as transformações demográficas criaram uma fratura nesses laços multigeracionais. A própria rigidez dessas tradições — que muitas vezes exige do idoso uma postura de autossuficiência para não se tornar um fardo — aliada ao isolamento urbano, acabou por desenhar um cenário de profunda e silenciosa solidão. O respeito ritualizado, assim, frequentemente convive com a invisibilidade cotidiana. |
| Comunidades Indígenas. | O idoso é a “biblioteca viva” da tribo, o guardião da memória coletiva, dos rituais, tradições e da história, possuindo centralidade nas decisões políticas. |
| Culturas Africanas Tradicionais (Ubuntu). | Pautadas no provérbio clássico: “Quando morre um ancião, queima-se uma biblioteca”. A ancestralidade começa em vida; o ancião é a ponte viva entre o passado e o futuro. É respeitado, ouvido e consultado. |
Conclusão: Derreter o Gelo.
Olhando em retrospecto, o diagnóstico da Dra. Thelma naquela noite de jantar ganha contornos de uma precisão cirúrgica. O copo cheio de gelo que repousava sobre a mesa não era apenas um erro de serviço; era o sintoma microfísico de um congelamento empático coletivo. Ao ignorar o pedido explícito daquela mulher, o mundo ao redor operava no piloto automático de uma sociedade que já não sabe escutar o tempo do outro.
Ela, que coordenava com maestria seu grupo de estudos, sustentando o lugar vigoroso de mestre, demonstrou o preconceito explícito que pode se desfazer pela força de sua lucidez; mas diante da vulnerabilidade cotidiana, o horror social desperta. Dados alarmantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que cerca de 50% das ocorrências de violência contra a população idosa acontecem dentro de casa, praticadas por filhos e netos, provando que esse ódio habita a própria intimidade dos laços consanguíneos.
Ao atacar, isolar ou desvalorizar o idoso, os filhos e a sociedade não estão apenas agindo com crueldade com o outro; estão tentando sabotar o próprio futuro. O ataque à velhice alheia é a expressão máxima do pavor que se tem da própria fragilidade. Enquanto o etarismo for tratado apenas como uma falha de etiqueta social, continuaremos falhando em enxergar a raiz da questão. Combater esse ódio exige mais do que leis; exige a coragem de olhar para o espelho do tempo e reconciliar-se com a nossa própria e inevitável vulnerabilidade e envelhecimento, para que amanhã não sejamos nós os próximos a assinar o termo de nosso próprio apagamento. Trate bem os idosos. Isto lhe fará bem!