Mudar é um Destino ou uma Caminhada?

Você já sentiu que estava finalmente mudando algo em sua vida, apenas para, semanas depois, se ver repetindo o mesmo erro de sempre? A sensação de dar dois passos para frente e um para trás é uma das experiências mais frustrantes da condição humana. Muitas vezes, olhamos para a transformação pessoal como uma linha reta: saímos do ponto A (o problema) e chegamos ao ponto B (a solução). Mas, se olharmos para os últimos escritos de Sigmund Freud, descobriremos que a mudança se parece muito mais com uma dança de ir e vir do que com uma corrida de cem metros. Em 1937, quase no fim de sua vida, Freud escreveu um ensaio fascinante chamado “Análise Terminável e Interminável”. Nele, ele despe o otimismo ingênuo e nos oferece uma visão honesta — e talvez libertadora — sobre por que mudar é tão difícil e por que o movimento de retorno faz parte do processo.

O Mito da Estação Final.

A primeira grande lição que podemos tirar para o nosso cotidiano é que a mudança não é um estado estático. Temos o hábito de pensar: “Quando eu resolver meu trauma, serei feliz” ou “Quando eu fizer terapia por um ano, estarei curado”. Freud nos diz que a análise (ou o processo de autoconhecimento) tem um fim prático — quando os sintomas param de nos paralisar — mas o trabalho sobre o nosso “eu” é, de certa forma, interminável. Isso acontece porque a vida não para de acontecer. Um novo luto, um novo emprego ou uma crise de meia-idade podem reativar velhas feridas que considerávamos catrizadas. O “voltar” não significa que você fracassou; significa que o mar da sua psique está sofrendo uma nova maré. A transformação real não é a ausência de conflito, mas a capacidade de lidar com o conflito de uma forma nova.

A Resistência e a “Viscosidade” da Alma.

Por que voltamos para comportamentos que nos fazem mal? Freud fala sobre algo chamado viscosidade da libido. Imagine que sua energia emocional é como um líquido que, com o tempo, se tornou espesso e grudou em certos hábitos e pessoas. Para mover esse líquido para um novo canal, é preciso muito esforço. Muitas vezes, nossa mente prefere o sofrimento conhecido à incerteza da mudança. Esse movimento de “ir” em direção ao novo assusta o nosso ego, que tenta “voltar” para a segurança do antigo, mesmo que esse antigo seja uma prisão. Entender que esse movimento de recuo é uma defesa natural do cérebro nos ajuda a ter mais autocompaixão. Mudar exige paciência para lidar com essa inércia.

A Rocha de Base: Aceitando Nossos Limites.

Um dos conceitos mais profundos deste texto é a ideia da “rocha de base”. Freud sugere que, por mais que a gente mude e evolua, chegamos a um ponto que é biológico, constitucional, quase imutável. No jargão da época, ele falava de questões de gênero e biologia, mas hoje podemos traduzir isso como o reconhecimento de que todos temos limites. A verdadeira transformação ocorre quando paramos de lutar contra quem somos na essência e começamos a trabalhar com o que temos. É o momento em que o “ir e vir” deixa de ser uma batalha exaustiva e se torna um ajuste de velas. Aceitar nossos limites não é desistir, é ganhar eficiência emocional.

Transformando o Sofrimento em Infelicidade Comum.

Pode soar pessimista, mas Freud dizia que o objetivo da terapia era transformar o sofrimento neurótico (aquele que nos paralisa e nos tira a realidade) em uma “infelicidade comum” (aquela que faz parte da vida de qualquer ser humano). O que isso tem a ver com a sua busca por mudança? Tudo. Significa que mudar não é se tornar um super-homem ou uma mulher maravilha sem problemas. Mudar é conseguir viver o movimento da vida — as alegrias e as dores — sem se perder no caminho. É entender que o “ir” para o futuro e o “voltar” para as nossas memórias é o que nos mantém vivos.

Conclusão: O Ritmo é Seu.

Se você sente que está em um processo de mudança, mas que as recaídas são frequentes, lembre-se da lição de Freud. A vida psíquica é dinâmica. O movimento de ir e vir é o que garante que não fiquemos fossilizados. A transformação não acontece no destino final, mas na qualidade do caminho que você percorre entre as suas luzes e as suas sombras. Da próxima vez que você se sentir voltando a um ponto antigo, não se desespere. Observe o que esse retorno está tentando te ensinar sobre sua “rocha de base” e use essa força para impulsionar o próximo passo à frente. Afinal, como diz a psicanálise, o fim de uma etapa é apenas o começo de uma nova forma de se enxergar.
Artigo inspirado na obra “Análise Terminável e Interminável” (1937) de Sigmund Freud.

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