
A prática esportiva vai muito além da saúde física e mental; ela é um laboratório vivo da psicologia humana. Em esportes de confronto direto, como o Tênis, o ego é colocado à prova em cada ponto. Quando um jogador diz “eu consegui perder”, ele não está apenas relatando um placar, mas acionando uma defesa psíquica para evitar o contato com a própria vulnerabilidade. Este artigo explora como a dificuldade em reconhecer o mérito do outro revela as armadilhas da nossa própria vaidade.
O tênis é um jogo difícil, mas fantástico. Para além do inegável bem-estar físico, a modalidade proporciona oportunidades únicas de experimentarmos situações psicológicas e emocionais das mais diversas. Na quadra, somos confrontados com quem somos e com a forma como os outros funcionam. É, acima de tudo, um palco de revelações sobre a nossa própria natureza.
O Caso do “Impostor” na Rede.
Recentemente, presenciei uma cena que ilustra bem essa dinâmica. Um amigo tenista relatava a um pequeno grupo sua vitória em um jogo de campeonato. Ele estava visivelmente feliz e um pouco surpreso: seu adversário era melhor ranqueado, o que tornava o triunfo ainda mais especial. Estava feliz, mas comedido.
A surpresa maior veio de um dos ouvintes, que contou ter recebido uma ligação do adversário derrotado. A frase utilizada pelo perdedor foi: “Consegui perder do Roberto”.
É fascinante observar a escolha das palavras. Ele não disse “o Roberto jogou melhor” ou “perdi a partida”. Ao dizer “consegui perder”, ele anula o mérito do outro. É uma tentativa desesperada de manter o controle da narrativa: o resultado não foi fruto da competência do adversário, mas de uma falha quase benevolente ou inexplicável de si mesmo.
A Ferida Narcísica e o Sofrimento Invisível.
Tenistas costumam ser muito criativos ao justificar derrotas — o vento, a raquete, o sono. Mas, neste caso, o comentário revela um ego hipertrofiado e uma ferida narcísica profunda.
Para um indivíduo com esse funcionamento, a derrota é sentida como um golpe traumático na própria identidade. O sofrimento que isso gera é genuíno: a sensação de que o seu “eu” foi exposto em sua fragilidade. Para não entrar em contato com esse desamparo, o sujeito reage com o desprezo. A recusa em cumprimentar o adversario na rede ou o ato de desmerecer a vitória do outro são tentativas desesperadas de mitigar o dano à sua autoimagem, aplacando a angústia frente à esta ferida. É o sofrimento de quem não tem recursos internos para integrar a perda, restando apenas o ataque como forma de sobrevivência psíquica.
A Ambivalência do Confronto.
O tênis guarda uma ironia intrínseca: preciso do outro para jogar, mas é dele que preciso ganhar. Essa mistura de necessidade e competição revela características fundamentais da vida: aprender a respeitar regras, a perder e a ganhar. Na quadra central de Wimbledon, há um pedestal com uma frase magnífica do poema “Se”, de Rudyard Kipling: ”Se puderes encarar a derrota e a vitória como dois grandes impostores…” > O poema finaliza com a promessa: “Serás um homem, meu filho”. São estas lições além das linhas que tornam o Tênis facinante. Roberto ganhou, mas não se gabou; apenas compartilhou sua jornada. O outro perdeu, mas não aceitou; preferiu atacar a si mesmo e, por tabela, desvalorizar o vencedor. Ganhar com serenidade e perder sem destruir a si mesmo ou ao próximo: eis as duas grandes lições que o Tênis pode nos oferecer. Afinal, tanto a vitória quanto a derrota são passageiras; o que fica é a integridade de quem segura a raquete.
O Tênis é como o espelho, onde a vaidade e a vulnerabilidade se encontram.
A prática esportiva é um laboratório vivo da psicologia humana. Quando um jogador diz “eu consegui perder”, ele aciona uma defesa psíquica para evitar o contato com a própria ferida narcísica. Faço votos para que o perdedor em questão aprenda a perder e a reconhecer o valor dos outros. Certamente isto aliviará o seu sofrimento.
Nelson, aprendi com você uma lição para a vida, pois os grandes normalmente são humilde, em todas as áreas. No esporte temos o Federer, temos nosso Guga, e outros que chegaram no topo sem desprezar os adversários.
Muito obrigado Muci. Um abraço.